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O Vale do Jequitinhonha e o Bolsa Família

        Acabo de voltar de uma intensa e transformadora viagem no Vale do Jequitinhonha. Nós, pesquisadoras do NEPEM, visitamos quatro comunidades da área rural de Araçuaí e ouvimos mais de cem beneficiarias do Bolsa Família a fim de entender quais foram os impactos de dez anos do programa na vida das mulheres. Dentre as quatro comunidades, duas eram comunidades rurais, Alfredo Graça e Baixa Quente, uma era indígena, Cinta Vermelha Jundiba (fruto de um casamento Pankararu-Pataxó) e uma quilombola, Baú Santana.                                                                          ...

Nada mais nada menos que uma chocadeira: sobre Adelir e a desmilitarização

Nathalia Duarte e Joviano Mayer Há uma frase feminista já bastante difundida que diz que “feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. “Que exagero!”, dirão alguns, “é claro que mulheres são gente, todo mundo sabe disso”. Bom, aparentemente o Estado brasileiro ainda não tem esse entendimento. Para ele, somos nada mais nada menos do que chocadeiras que parirão os homens (pilares da sociedade) e mulheres (que no futuro irão parir mais homens). A quem acha que essa afirmação é muito radical, respondemos que radical é a violência à qual Adelir Carmen Lemos de Góes foi recentemente submetida, assim como acontece com inúmeras mulheres diariamente no Brasil. Arte: Bruna Barros rabiscodiario.tumblr.com O caso de Adelir, no entanto, explicita de forma incontestável a violência obstetrícia (mais uma das 238.587 formas de violência que atingem as mulheres) e evidencia, ainda, o papel ativo do Estado na colocação da mulher no lugar de mera chocadeira a despeito da sua con...

Cientista comprova: a pesquisa do IPEA não está errada

Sobre o suposto erro na pesquisa do IPEA, tenho algumas coisas a dizer, já que, além de mulher, sou cientista social. Todas, simplesmente TODAS, as pesquisas quantitativas podem ser contestadas (e claro, as qualitativas também), porque as ciências humanas (eu incluiria também as naturais e exatas, mas deixa isso prum outro texto) não são e jamais serão objetivas. A forma como se pergunta sempre irá influir na resposta, assim como QUEM pergunta, QUANDO, ONDE e PARA QUEM se pergunta (a esse respeito, gosto sempre de lembrar a famosa pesquisa realizada em São Paulo em 1988 na qual 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito racial, ao passo que 98% destes mesmos entrevistados  afirmaram conhecer pessoas de seu círculo próximo que tinham, sim, preconceito). Amostras sempre podem ser enviesadas, "erros" de aplicação de questionário sempre ocorrerão. São humanos lidando com humanos, oras! Como cientista social que sou (e olha que nem entendo muito de sociologia qu...

Vestir-se de “mulher” no carnaval: transgressão ou agressão?

Carnaval é bom pra pular, mas também é bom pra pensar. E a reflexão que faço esse ano, como feminista que sou, tem a ver com o tradicional costume dos homens de se vestir de “mulher” (como se o conceito pudesse ser tratado no singular) nessa época do ano. O que pensam esses homens? O que os motiva? De que “mulher” eles se vestem? Alguns argumentarão que vestir-se de mulher no Carnaval tem a ver com a inversão generalizada típica da festa. Homens machistas e homofóbicos que normalmente repudiam o feminino por medo de serem considerado homossexuais, nessa época do ano, têm a permissão de se travestir. Mas o que é que se inverte no fim das contas? Os homens não passam a ser as maiores vítimas de assédios e abusos sexuais, nem de violência doméstica, nem têm suas questões invisibilizadas, como acontece diariamente com as mulheres. As mulheres, por sua vez, não ganham o direito de andar com (ou sem) qualquer roupa sem ser incomodadas, nem de tirar a camisa por causa do calor, nem de ci...

Uma homenagem à minha avó

Sabe aquela vovó que fica em casa tricotando e fazendo bolo? A Nana, minha avó, nunca foi assim. Sempre foi uma avó ativa, antenada, de espírito jovem. Desde criança sou encantada com ela. Adorava dormir em sua casa, passear com ela no feirashop, ir ao cinema, ao teatro e ao clube. E quanto mais eu crescia, mais eu a admirava. E pensava sempre: quando eu crescer, eu quero ser igual à Nana. A Nana é mais jovem do que muito amigo meu, ela gosta de funk, de Ney Matogrosso, ela vai com frequencia ao cinema, e ainda bebe uma cervejinha diariamente. Mas junto com toda essa jovialidade que eu tanto gosto, ela traz também muita sabedoria, e é por isso que sempre ouço atentas às suas histórias, que terminam geralmente com um ditado popular. Acho que é por causa dela que eu peguei tanto gosto por tais ditados... Como feminista que sou (e talvez ela tenha uma parcela de responsabilidade nisso), admiro muito sua força e independência. Admiro também sua abertura para lidar com o diferente e...

Lulu e Tubby: por que somos contra?

Primeiro surge o Lulu, um aplicativo no qual mulheres avaliam homens com os quais já se relacionaram. A revolta masculina é geral: estão querendo nos avaliar? Nos dar notas? Nos expor? Justo nós, que estamos acima de qualquer avaliação? Quem via a polêmica de fora (meu caso, já que não tenho smartphone para ter o aplicativo) achava que os homens estavam sendo alvo de uma verdadeira inquisição. Quando fiquei sabendo de quais eram os hashtags, no entanto, vi que se tratava de violência zero: “nerd”, “cara legal”, “imaturo” e “lembra aniversários” são exemplos das “classificações absurdas” das quais eles estavam sendo alvo. Muitos argumentaram que o problema era a ausência de privacidade, a ausência de controle sobre seus dados, a quantificação e superficialidade das relações. Bem, eu concordo que tudo isso é ruim, mas será que foi o Lulu que inaugurou essas coisas? O Facebook, o Google, a Apple e várias outras empresas já acabaram há muito tempo com nosso direito sobre nossos p...

Por que o Espaço Comum Luiz Estrela é mais do que uma ocupação cultural

Foi inaugurada, em 26 de outubro em Belo Horizonte, uma experiência artístico-político-cultural totalmente nova: o Espaço Comum Luiz Estrela, uma ocupação que pretende ser um centro cultural autogestionado. Acompanhei de perto o processo de planejamento, apesar de não fazer efetivamente parte dele, e digo aqui de algumas impressões sobre o mesmo e sobre os significados dessa iniciativa. A primeira coisa que me chamou atenção foi o comprometimento intenso do grande número de pessoas envolvidas no processo de concepção, ocupação e organização do espaço. Pessoas que tiveram muito trabalho para tornar esse projeto realidade por acreditarem profundamente na construção coletiva, na autogestão, no potencial revolucionário da arte, na importância de ocupar e pautar a cidade. A segunda coisa que me chamou atenção foi a coerência do processo. Além da construção ter sido sempre baseada no diálogo horizontal intenso, a arte serviu como meio, e não apenas como fim. Tanto a vistoria como...