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Um voto altruísta e incoerente

  Peço desculpas aos povos indígenas, às pessoas que moram na favela da Maré, às pessoas da oposição de esquerda que foram vigiadas, ameaçadas, reprimidas e presas por se manifestar contra a  Copa (incluindo eu mesma), à população negra exterminada, à população LGBT que quase não foi enxergada e às mulheres que morreram fazendo abortos, mas, depois de muito refletir, decidi votar na Dilma. Decidi votar na Dilma, não por medo (acho que esse sentimento, tantas vezes mobilizado por forças conservadoras, não é um bom motivo para fazer escolhas políticas), mas pelas mulheres que conheci no Vale do Jequitinhonha, que antes do governo do PT não tinham renda, atendimento médico, nem comida. Decidi votar na Dilma pelas comunidades quilombolas e tradicionais, que apesar das violências que ainda sofrem, só começaram a ser reconhecidas e minimamente amparadas pelo Estado no governo do PT. Pelas negras e negros que hoje podem estudar nas universidades públicas e por todas as pessoas ...

O que o resultado das eleições têm a ver com as manifestações de Junho?

Após o resultado das eleições 2014, vi várias pessoas e analistas dizendo que nada mudou no cenário eleitoral depois das manifestações de junho de 2013, ou que o congresso ficou ainda mais conservador. Afinal de contas, o que as manifestações de Junho têm a ver com  o resultado das eleições? Minha resposta é relativamente simples: nada. Se não podemos definir sobre o que exatamente eram as manifestações, dada a imensa diversidade de pautas, podemos ressaltar facilmente que o repúdio a bandeiras e partidos de qualquer posicionamento ideológico veio com força total (por vezes de forma inclusive violenta). As jornadas de junho vieram pra mostrar o tamanho da descrença da juventude no atual sistema democrático representativo e, se estamos falando justamente de uma profunda crise de representação, é claro que não é nas urnas que a voz das ruas vai se expressar. Essa eleição foi como dar uma questão fechada a jovens que só querem questões abertas, ou melhor, querem mesmo é elab...

Dilma com outra roupa? Uma análise feminista das eleições

É a primeira vez que temos duas mulheres liderando as pesquisas para presidente do país, com chances reais de se enfrentarem no segundo turno. O macho-alfa Aécio (que até recentemente, estava crente que iria abalar) se desesperou e resolveu atacar suas duas concorrentes de uma só vez: por meio, claro, do machismo. Ouvi hoje seu mais novo jingle, que termina com a seguinte frase: "Marina é Dilma com outra roupa". Fiquei indignada e resolvi reunir nesse texto todas as impressões que tenho tido das campanhas no que tange à discussão feminista. Após sofrer ataques recentes, Marina fez um apelo feminista à Dilma: "Por favor presidente, venha para o debate, apresente seu programa, mas não queira, a primeira mulher presidente da República, destruir uma outra mulher que também tem o direito de participar da democracia", durante comício em Campina Grande, interior da Paraíba. Programas políticos à parte, essa é uma das declarações mais feministas que ouvi até agora na...

O Vale do Jequitinhonha e o Bolsa Família

        Acabo de voltar de uma intensa e transformadora viagem no Vale do Jequitinhonha. Nós, pesquisadoras do NEPEM, visitamos quatro comunidades da área rural de Araçuaí e ouvimos mais de cem beneficiarias do Bolsa Família a fim de entender quais foram os impactos de dez anos do programa na vida das mulheres. Dentre as quatro comunidades, duas eram comunidades rurais, Alfredo Graça e Baixa Quente, uma era indígena, Cinta Vermelha Jundiba (fruto de um casamento Pankararu-Pataxó) e uma quilombola, Baú Santana.                                                                          ...

Nada mais nada menos que uma chocadeira: sobre Adelir e a desmilitarização

Nathalia Duarte e Joviano Mayer Há uma frase feminista já bastante difundida que diz que “feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. “Que exagero!”, dirão alguns, “é claro que mulheres são gente, todo mundo sabe disso”. Bom, aparentemente o Estado brasileiro ainda não tem esse entendimento. Para ele, somos nada mais nada menos do que chocadeiras que parirão os homens (pilares da sociedade) e mulheres (que no futuro irão parir mais homens). A quem acha que essa afirmação é muito radical, respondemos que radical é a violência à qual Adelir Carmen Lemos de Góes foi recentemente submetida, assim como acontece com inúmeras mulheres diariamente no Brasil. Arte: Bruna Barros rabiscodiario.tumblr.com O caso de Adelir, no entanto, explicita de forma incontestável a violência obstetrícia (mais uma das 238.587 formas de violência que atingem as mulheres) e evidencia, ainda, o papel ativo do Estado na colocação da mulher no lugar de mera chocadeira a despeito da sua con...

Cientista comprova: a pesquisa do IPEA não está errada

Sobre o suposto erro na pesquisa do IPEA, tenho algumas coisas a dizer, já que, além de mulher, sou cientista social. Todas, simplesmente TODAS, as pesquisas quantitativas podem ser contestadas (e claro, as qualitativas também), porque as ciências humanas (eu incluiria também as naturais e exatas, mas deixa isso prum outro texto) não são e jamais serão objetivas. A forma como se pergunta sempre irá influir na resposta, assim como QUEM pergunta, QUANDO, ONDE e PARA QUEM se pergunta (a esse respeito, gosto sempre de lembrar a famosa pesquisa realizada em São Paulo em 1988 na qual 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito racial, ao passo que 98% destes mesmos entrevistados  afirmaram conhecer pessoas de seu círculo próximo que tinham, sim, preconceito). Amostras sempre podem ser enviesadas, "erros" de aplicação de questionário sempre ocorrerão. São humanos lidando com humanos, oras! Como cientista social que sou (e olha que nem entendo muito de sociologia qu...

Vestir-se de “mulher” no carnaval: transgressão ou agressão?

Carnaval é bom pra pular, mas também é bom pra pensar. E a reflexão que faço esse ano, como feminista que sou, tem a ver com o tradicional costume dos homens de se vestir de “mulher” (como se o conceito pudesse ser tratado no singular) nessa época do ano. O que pensam esses homens? O que os motiva? De que “mulher” eles se vestem? Alguns argumentarão que vestir-se de mulher no Carnaval tem a ver com a inversão generalizada típica da festa. Homens machistas e homofóbicos que normalmente repudiam o feminino por medo de serem considerado homossexuais, nessa época do ano, têm a permissão de se travestir. Mas o que é que se inverte no fim das contas? Os homens não passam a ser as maiores vítimas de assédios e abusos sexuais, nem de violência doméstica, nem têm suas questões invisibilizadas, como acontece diariamente com as mulheres. As mulheres, por sua vez, não ganham o direito de andar com (ou sem) qualquer roupa sem ser incomodadas, nem de tirar a camisa por causa do calor, nem de ci...