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Da política ao auto-conhecimento - ou porque auto-cuidado não é alienação

  "Frei", do alemão, "livre". (Foto minha de uma placa em Berlim) Este texto é um desabafo, uma terapia e uma forma de engajamento político ao mesmo tempo. Ele é fruto de uma angústia cuja razão demorei um tempinho pra entender. Pra lidar com esse sentimento estranho que eu não conseguia significar, resolvi seguir o conselho que sempre dou para as pessoas: depois de aceitar e sentir, procurei entender o que esse sentimento estava querendo me dizer. Nesse processo de auto-análise percebi que há muito tempo eu não escrevia no blog - coisa que amo - e consegui descobrir a razão: me afastei, por motivos que vou explicar ao longo desse texto, do ativismo político - na sua concepção clássica, ao menos - e como o blog sempre foi destinado à política, eu não tinha mais o que escrever no blog. Não que eu não tenha mais nada pra dizer, tenho muita coisa, mas por receio do julgamento externo, acabei me silenciando. Explico.  Cresci em um meio intelectual, majorita...

Mulheres na frente e atrás das câmeras: Como vai você, Olívia?

“Finalmente um filme que fala de maternidade sob uma perspectiva feminista” foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quando terminei de ver o incrível “Olmo e a Gaivota”. E não por acaso a ficção documental, que mostra o ponto de vista de uma atriz de teatro durante sua gravidez real, foi dirigida por duas mulheres, a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob. A forma através da qual as diretoras misturam ficção e realidade faz com que o filme seja muito mais do que a discussão sobre um tema importante: ele é propriamente uma obra de arte. Como é bom – e raro – assistir a filmes de mulheres! Racionalidade à parte, os sentimentos que me vieram foram vários: fiquei profundamente tocada com esse filme, que conversou diretamente com minhas muitas questões em torno da maternidade (uma realidade ainda ausente da minha vida, mas que se mostra cada vez mais próxima e possível). Não sei se quero ser mãe. Sei que agora não quero – apesar de que sei também que não interr...

"Viagra feminino" - o sintoma de uma sociedade doente

Finalmente chegou a solução milagrosa para a "falta de libido feminina", ela é rosa, vem em forma de cápsula e traz inúmeros efeitos colaterais. Não deve ser ingerida por mulheres com insuficiência hepática, nem junto com álcool e nem junto com a pílula anticoncepcional (outro problema sério, como pode-se ver aqui ). O que vem sendo vendido como uma conquista de igualdade para as mulheres - "se os homens têm direito a Viagra, por que as mulheres não têm?", dizem os jornais - é, na minha visão, uma excelente vitória da indústria farmacêutica, do mercado das patologias, em suma, de uma sociedade doente. Doente não só porque capitalista e cada vez mais desconectada da natureza (quem foi a pessoa louca que inventou a farmácia com tudo que a gente precisa pra ser saudável nascendo do chão?), mas porque obcecada com a doença, tudo é doença. A criança não consegue ficar 5 horas sentada em uma sala de aula e depois concentrar no inglês, no judô, no balé e na aula particu...

O que queremos reduzir?

Esse é um guest post de mim mesma com 16 anos. Depois da triste aprovação da proposta de emenda constitucional para reduzir a maioridade penal pela Comissão de Constituição e Justiça, me lembrei desse texto que escrevi na adolescência para um jornal mural que eu e uns amigos inventamos. Considerando que o caminho para a efetiva aprovação da PEC ainda é longo, quis resgatar o texto para contribuir com o debate. Optei por não fazer alterações: O que queremos reduzir? Henry Thoreau, considerado pai do anarquismo, já nos atentou para o fato de que o Estado aprisiona o corpo dos transgressores por não conseguir parar seus pensamentos. Encher as penitenciárias de pessoas que são um incômodo para a sociedade, lembrando que a maioria dos presos é de classe baixa, nada mais é do que fechar os olhos para um grave problema. Encher as penitenciárias de incômodos em potencial, ou seja, reduzir a maioridade penal, é não só ignorar a crise que estamos vivendo como agravá-la. As péssimas co...

Sobre Duvivier, feminismo e diálogo

A última polêmica feminista nas redes sociais diz respeito a uma das três capas da TPM de novembro deste ano que traz Gregório Duvivier criticando a proibição do aborto no Brasil. Após ter recebido críticas de algumas feministas, Gregório se defendeu em sua coluna , o que colocou um pouco mais de lenha na fogueira.  Como feminista e ativista virtual, gostaria de dar minha contribuição para o debate, lembrando sempre que existem vários feminismos, várias posições possíveis (e hoje em dia eu vejo isso como algo bastante positivo) e a minha é só mais uma. Gregório Duvivier foi criticado por estar tirando o protagonismo das mulheres ao ser capa da revista. Muita gente que não participa dos espaços políticos feministas ou com feministas provavelmente nem entende de onde essa crítica vem. Essa crítica é, no entanto, muitíssimo importante e vou tentar resumir o porquê. Vivemos em um país dominado por homens (basta dizer que em um país com maioria de mulheres, os homens co...

Um voto altruísta e incoerente

  Peço desculpas aos povos indígenas, às pessoas que moram na favela da Maré, às pessoas da oposição de esquerda que foram vigiadas, ameaçadas, reprimidas e presas por se manifestar contra a  Copa (incluindo eu mesma), à população negra exterminada, à população LGBT que quase não foi enxergada e às mulheres que morreram fazendo abortos, mas, depois de muito refletir, decidi votar na Dilma. Decidi votar na Dilma, não por medo (acho que esse sentimento, tantas vezes mobilizado por forças conservadoras, não é um bom motivo para fazer escolhas políticas), mas pelas mulheres que conheci no Vale do Jequitinhonha, que antes do governo do PT não tinham renda, atendimento médico, nem comida. Decidi votar na Dilma pelas comunidades quilombolas e tradicionais, que apesar das violências que ainda sofrem, só começaram a ser reconhecidas e minimamente amparadas pelo Estado no governo do PT. Pelas negras e negros que hoje podem estudar nas universidades públicas e por todas as pessoas ...

O que o resultado das eleições têm a ver com as manifestações de Junho?

Após o resultado das eleições 2014, vi várias pessoas e analistas dizendo que nada mudou no cenário eleitoral depois das manifestações de junho de 2013, ou que o congresso ficou ainda mais conservador. Afinal de contas, o que as manifestações de Junho têm a ver com  o resultado das eleições? Minha resposta é relativamente simples: nada. Se não podemos definir sobre o que exatamente eram as manifestações, dada a imensa diversidade de pautas, podemos ressaltar facilmente que o repúdio a bandeiras e partidos de qualquer posicionamento ideológico veio com força total (por vezes de forma inclusive violenta). As jornadas de junho vieram pra mostrar o tamanho da descrença da juventude no atual sistema democrático representativo e, se estamos falando justamente de uma profunda crise de representação, é claro que não é nas urnas que a voz das ruas vai se expressar. Essa eleição foi como dar uma questão fechada a jovens que só querem questões abertas, ou melhor, querem mesmo é elab...