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O escudo sagrado do Galo e o espaço sagrado do futebol

Nos últimos dias, a Galo Queer criou muita polêmica, menos por fazer uma campanha contra o sexismo e a homofobia no futebol e mais por ter colorido parte do escudo do Atlético-mg com as cores da bandeira do movimento LGBT. Mas... será que essas duas coisas estão realmente separadas?

Dentre várias manifestações de apoio, também muitas manifestações de repúdio surgiram, a maioria contendo os seguintes argumentos: “o escudo do Galo é sagrado”, “vocês podem fazer o movimento que quiserem, mas não mexam com as cores do Galo, tradição é tradição”, “É uma palhaçada misturar futebol com política, só pra chamar a atenção” e por aí vai. Várias pessoas sugeriram, para amenizar a situação, que se colocasse a bandeira LGBT atrás do escudo, ou as cores em volta do escudo, mas que se mantivesse o escudo original.

É interessante, no entanto, ver o que está por trás desses discursos todos. O primeiro aspecto é que o ataque ao escudo colorido é uma forma menos explícita de se pronunciar contra o movimento, afinal de contas, se declarar explicitamente contra um movimento pacifista anti-intolerância no futebol pode pegar muito mal. Fica mais fácil, então, atacar o símbolo do movimento. Mas se o símbolo do movimento é uma tentativa de unir o escudo do Galo com as cores da diversidade, se manifestar contra o símbolo é se manifestar contra a própria iniciativa. O movimento quer colorir a torcida do Galo com as cores da diversidade, quer colorir o futebol com as cores da diversidade, por que é que o símbolo sagrado não pode ser colorido?

O argumento de que “tradição é tradição” e de que “o escudo do Galo é sagrado”, que “as cores poderiam estar em volta, mas não no escudo” me remetem a um discurso muito comum: o discurso de que o futebol é um espaço de exceção, um espaço sagrado, onde o machismo e a homofobia são permitidos. O movimento LGBT pode existir à margem do futebol, ao lado do futebol, mas que não ousem colocá-lo dentro do futebol! O discurso de oposição ao escudo colorido é o mesmo: “vocês podem colorir em volta ou atrás do escudo, mas não venham pervertê-lo!”. Ora, o que está se pervertendo e se subvertendo aqui é a própria ordem, é a ordem social que é machista e homofóbica. Não há mudança social sem a mudança dos ícones, dos símbolos, dos imaginários, e é isso que o escudo colorido está dizendo. Me parece que a resistência ao escudo colorido é a própria resistência a um mundo colorido, há um mundo de respeito e diversidade, onde o amor não tenha que seguir regras. Afinal de contas, se tradição não pudesse ser mudada, estaríamos na época da escravidão até hoje.

Por fim, criticar a mistura do futebol com a política é uma postura cega. Tudo que se diz “neutro” ou “apolítico” está, na verdade, defendendo os interesses dominantes e, justamente por isso, invisíveis pra muitos. O futebol é político e muito político, ele é masculino, machista e heteronormativo. Um movimento como a Galo Queer não se interessa em manter o futebol assim, ele se interessa em espalhar a diversidade e o respeito. E a verdade é que, o branco do escudo do Galo já contém todas as cores, por ser o próprio branco a mistura de todas elas. Colorir o escudo é, portanto, apenas decifrar essas cores, cobertas por um conservadorismo acinzentado.

Comentários

  1. Ótimo texto, Nathalia! Engraçado como o mundo dos esportes é um mundo onde as "tradições inventadas" têm força!

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    1. E qual tradição não foi inventada??? O Natal??

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  2. Clap, clap, clap, clap! (Mas o original é mais bonito...)

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  3. Quando uma Galo Metal re-desenha as linhas externas do escudo com arame farpado, e caveira do Motörhead, ninguém reclama.

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    1. Até faço ideia de quem seja esse "Anônimo" aí... hahahaha

      O que acontece é que a Galo Metal não "redesenhou" as linhas externas do escudo. Ainda que tenha arames farpados e caveira do Motorhead, o escudo permanece incólume, inalterado em suas cores e formas, dentro da marca da Galo Metal.

      Então, Sr. Anônimo, mais uma vez repito para você: pare de falar bobagem sem saber. Procure entender um pouco mais do assunto antes de sair comentando besteira por aí.

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    2. Caro Rapha Garcia,

      Você não faz ideia de quem seja essa "Anônimo", porque nunca te vi na vida. Nem atleticano sou, e por isso preferi não escrever com minha identidade. Então não começa com teoria da conspiração.

      Eu citei o caso da Galo Metal, pra mostrar que houve uma adaptação do escudo do Galo (ou tem arame no escudo original?) pra um símbolo de um grupo (metaleiros), e nesse caso ninguém se opôs.

      O mesmo vale pra outras organizadas, ou pra aqueles que adaptam o formato do escudo pro formato de um coração. Mas no caso da Galo Queer as pessoas se mostram "indignadas" com a mudança.

      Ou seja, a homofobia é clara, mesmo as pessoas negando, ao fingirem estar indignadas é com a alteração das cores do escudo.




      adaptação do

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    3. Sou gay, atleticano, gosto da torcida Galo Metal e adorei o incremento de cores no meu time.

      Bica e chupa eles, GAlo!

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  4. Olá Nathália,

    Parabéns pela iniciativa, pois isso resgata uma coisa que estava sendo perdida. O Galo sempre foi o clube das "minorias".

    Porém, gostaria de ver outro símbolo pra Galo Queer. Não concordo com símbolos de torcidas que explorem as marcas dos clubes. Acho que dá pra fazer referência ao Galo sem usar o escudo (assim como alguns blogs veja o símbolo do http://www.paixaopretoebranca.com/ por exemplo), mas isso é opinião. Sempre haverá resistência contra esse símbolo. Acho que mudando dá até pra conseguir mais apoiadores pro movimento.

    Uma sugestão caso não mude o símbolo: Muitas dessas reclamações podem ser amenizadas pela simples substituição da cor azul por vermelho.

    Abraços

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  5. Postagem de péssimo gosto essa!! Os estádios de futebol nunca se fecharam contra cidadãos de nenhuma opção sexual, tal como as lojas de artigos esportivos onde são comercializadas as camisas dos times. Penso que até um "jornalista" caiu na brincadeira que cruzeirenses fizeram com a torcida do Atlético. Torcedores chamam uns aos outros de "Marias, Rosanas, Frangas, Bichas" e depois vão para o Facebook falar de inclusão social. "Muito coerente". Se fosse verdade, claro. E penso eu que isso apenas contribui com a segregação, primeiro que futebol nada tem a ver com opção sexual, religião ou orientação política, times de futebol foram feitos para jogar futebol, e segundo, e corroborando a isso, imagine só se um torcedor me aparece em um estádio com uma camisa carregando um símbolo desses, na atual conjuntura em que os aspectos religiosos e de comportamento, tais como vários outros não estão nada bem resolvidos? Então eu recomendo que se oriente e avalie melhor as abordagens que faz, e não apenas tente ganhar projeção em cima de polêmicas. Um abraço.

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  6. acho que o futebol esta em um outro patamar da sociedade..
    eh como as lutas de gladiadores do passado, onde a torcida soltava todos os seus demonios no adversario. chinga de tudo quanto eh nome.
    a galera fica muito bruta no campo. se nao existe respeito com as diferenças fora de campo, dentro dele fica muito mais dificil de conseguir.
    creio que passa por uma transformação consciente do povo e isso vai refletir dentro do estadio.
    pra mim, galo eh galo, nao tem galoucura, 105 ou qualquer outra torcida. somos todos torcedores do atletico mineiro. eh um time do povo, ja diz tudo. eh um time de todos.
    acho que eh bobagem inventar uma torcida assim. infelizmente a nossa sociedade eh atrasada e dentro de campo eh mais ainda. eh lutar por uma mudança num todo que vai refletir no campo.
    nem na europa, considerada mais evoluida nos temos uma boa visão do futebol. apesar que quanto a homofobia, la eh mais leve que aqui, mas a questão racial eh muito tensa.

    Tony

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  7. Benny Gesmundo: Sou cruzeirense, parabenizo a iniciativa, mas discordo sobre alterar as cores de uma instituição que representa milhões de indivíduos e ainda taxar de homofóbico quem discordar. Aliás, as redes sociais têm se tornado território hostil para quem ousa apenas questionar. Tá ficando difícil o convívio, isso só gera revolta, ataques desnecessários e intolerância de todos os lados. Cuidado com o patrulhamento! Voltando ao assunto, há muitas maneiras de se representar um movimento associado ao clube, sem ter que modificar as características de uma marca registrada e que são definidas no estatuto deste clube. Crie um próprio logotipo, faça uma estilização do escudo ou dos símbolos do clube, aliado às cores do movimento. Há muito bom webdesigner por ai.
    Comentário retirado do Facebook.
    Faço dele as minhas palavras...!

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  8. Posso não ter gostado do escudo e não ser homofobico?

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  9. Quer dizer que se eu não gostei do escudo, sou homofóbico?

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  10. VÃO PARA O INFERNO
    SOU GALO
    RESPEITEM AS TRADIÇOES ALVINEGRAS PRETO E BRANCO

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    1. Ficou lindo, assim como você, meu amor.
      Sou gay, sou Gaylo. Você também.

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  11. PRA PUTA QUE PARIU QUEM CRIOU ESSA PÁGINA!

    AQUI É GALO PORRA!

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    1. Por isso mesmo que ela foi criada, amigo. Bicharada de Vespasiano.

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  12. povo folgado..... dps querem pedir direitos iguais, respeito, querem espaço........ como querem isso se ja querem se meter onde desrespeitam os outros??

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  13. Ótimo texto. Faltou citar como exemplo dessa resistência velada a "perversão" do escudo do galo por outros movimentos, como Galo Metal. Os mesmos que criticam se opõem?

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  14. Acho completamente desnecessário colorir o escudo!! Isso é uma marca registrada, um patrimônio de um clube!! Não sou contra seu movimento, mas sugiro criar seu próprio símbolo!! Com a insistência em manter o símbolo dessa forma, creio que o movimento perderá a essência e o que restará será apenas a polêmica!!

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  15. Não é sobre a sua ideologia que estamos tratando o assunto, e sim o uso de algo o qual não lhe pertence para tratar os seus interesses. Quando vc usa o logotipo de qualquer empresa, esta passa a ser responsável por tal assunto, e as pessoas a qual a rodeiam também. Sou torcedor do Atlético, e todos com quem discuti o assunto se sentiram usados sem serem consultados. Quando se generaliza dizendo que a torcida apóia o fim da homofobia no futebol, vc inclui uma Massa que não foi consultada. Sobre o símbolo, convenhamos, foi ridículo, e isso a incomodou tanto que vc o alterou.
    Não venho aqui me ater a fatos irrelevantes, e sim a algo maior, e isto está ligado diretamente ao respeito às pessoas. O nome Galo representa milhões de pessoas que podem ou não optar por apoiar esta causa, mas o que não pode é usá-los sem seu consentimento.

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  16. Daqui a pouco tem q chamar o rival de bobo e feio né... feio já é preconceito... Virou moda cheio de propaganda na tv... e cade a liberdade de expressão? Tem até comentário retirado pela autora...

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  17. É realmente ridículo ver pessoas reclamando porque tem uma faixinha azul no escudo, ou simplesmente reforçando o tempo inteiro exatamente o que a Nathalia tenta combater no texto: a ideia de que o futebol é uma ilha dentro da sociedade onde as pessoas podem se permitir ofender qualquer um e depois ir para casa sem maiores problemas. Essa estupidez tá mais do que na hora de acabar, e esse pessoal dando chilique por causa de escudo colorido tá precisando parar de agir feito criança mimada e aprender a discutir igual gente. Porque um movimento que apoia o movimento LGBT não pode utilizar o símbolo do galo? É um símbolo tradicional mas que está ai para ser apropriado e eu nunca ouvi falar em nenhuma regra que proibisse seu uso para qualquer fim que seja. E parem também de falar que a menina que criou a página está querendo apenas aparecer, ela se arriscou a mexer em algo que a anos permanecia intocado - e não falo do escudo, mas da homofobia e do sexismo dentro do futebol - e iniciou um movimento nacional de luta pelos direitos de todos irem aos estádios e amarem os seus times sem que sejam discriminados pela sua orientação sexual. E sem esse papinho de que os estádios são abertos a qualquer um que queira ir, porque não só os estádios brasileiros estão passando por um gradual processo de elitização tal qual ocorreu na inglaterra, como eu gostaria muito de ver a reação de qualquer torcida no Brasil se um casal gay fosse junto ao estádio assistir a um jogo. Será que eles seriam bem aceitos?

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  18. Alteticanos se mordendo de contradições é o máximo. Estava na cara que um dia a verdade viria à tona, e tudo acabou se iniciando com o mandato do Kalil e a contratação do Ricky.

    HOMOFOBIA? O ATLÉTICO E BOA PARTE DE SUA TORCIDA DIZEM NÃO!

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