Pular para o conteúdo principal

Quantas feministas são necessárias pra trocar uma lâmpada? Ou sobre o riso dos outros.



Desde que me entendo por ser pensante, fui daquelas pessoas que discutem ou se retiram quando uma piada racista, sexista, homofóbica e etc. é contada. Sempre tive que ouvir, portanto, que não tenho “senso de humor”.  Eu, no entanto, adoro gente engraçada. Só tenho uma concepção bem diferente do que seja humor. E assistindo ao documentário "O Riso dos Outros" (disponível aqui!) vi que felizmente há vários humoristas que compartilham da mesma concepção e do filme tirei a inspiração para escrever esse texto. 

Pra mim piada preconceituosa é humor fraco, fácil e, mais do que “politicamente incorreto”, politicamente ativo. Quando alguém faz piada pra rir de negro, de índio, de mulher, de gay, não está só contando uma piada, está endossando um discurso político. Isso porque, como explicou muito bem Alex Castro aqui, para uma piada ser engraçada, é fato, alguém tem que se foder, e a questão toda é: quem é que está se fodendo? Se é o negro, o índio, a mulher, o gay, então a piada está compactuando com um sistema existente e dominante, no qual os negros, os índios, as mulheres e os gays se fodem de verdade, todos os dias. Mas se quem se fode é o racista, o machista, o opressor, aí sim é humor inteligente. Afinal de contas, tirar sarro de quem tá na sarjeta é fácil, especialmente quando esse alguém não é você.   

 E aí quando a gente tenta explicar isso pra uma pessoa, a gente ouve em geral dois tipos de respostas: “ah, deixa de ser careta”, ou “você é da patrulha do politicamente correto? Agora ninguém pode falar mais nada, isso é censura!”. Pra você que acha que esse discurso é careta, tenho uma má notícia: o careta é você! Segundo o dicionário informal, careta é “aquele que sempre segue os padrões antigos, que não arrisca coisas novas e diferentes”. Pois é exatamente isso que as piadas preconceituosas fazem, elas reproduzem velhos padrões de pensamento, velhas relações de poder, elas não desafiam, não arriscam, não transformam. Elas são burras. Burras e caretas.
E pra você que chama essa reação de “patrulha”, “censura”, ou “ditadura”, tenho uma breve explicação a dar: liberdade de expressão é você ter a liberdade de postar o que você quiser no seu twiter, e alguém ter a liberdade de te processar se se sentiu ofendido, isso chama democracia. Na vida é assim: você tem a liberdade de tomar todas, mas você vai passar mal depois. Você pode fumar quantos cigarros você quiser, mas eventualmente você terá problemas no pulmão. Você pode contar uma piada racista, mas vai ter que se ver com a opinião pública. Amigo, aprenda, liberdade de expressão é isso: você fala o que quiser, mas arca com as consequências do que você disse. Chamar isso de patrulha, de ditadura ou de censura é um grande cinismo. Porque ditadura, pra quem não sabe, é outra coisa. Numa ditadura, se você falar algo que não é permitido, te ameaçam, te torturam e até te matam. Na democracia, vão pessoas protestar na frente do seu trabalho ou a justiça te faz pagar alguns mil reais. Dá pra ver a diferença?


E por falar em patrulha, é muito engraçado que as pessoas que estão lutando pelo fim das desigualdades e dos preconceitos sejam as chamadas de “patrulha”. Quem será que está patrulhando as práticas alheias? Uma pessoa que gosta de pessoas do mesmo sexo e quer simplesmente ser respeitada ou quem a discrimina, a ridiculariza e não permite que ela viva do jeito que bem entender? No documentário, Danilo Gentili diz que essa “patrulha do politicamente correto” é perigosa. É perigosa mesmo. Ele só não falou perigosa pra quem. É perigosa pra quem se beneficia do status quo, pra quem não quer abrir mão de privilégios, pra quem destila preconceitos e reafirma estereótipos dizendo que “é só uma piada”. E não é coincidência que a maioria dos humoristas que contam esse tipo de piada sejam homens brancos heterossexuais de classe-média. Eles nunca sentiram na pele o que sente uma mulher que é assediada diariamente, que carrega desde sempre o medo de ser estuprada e cujas capacidades intelectuais/motoras são constantemente postas em cheque. Nunca sentiram na pele o que é não conseguir emprego ou ser tido frequentemente por ladrão só por ser negro. Nunca tiveram que esconder suas relações amorosas/sexuais por medo de apanhar na rua ou ser expulso de casa (e ainda aguentar neguinho no topo da pirâmide rindo da sua cara). Aí realmente fica muito fácil dizer que “é só uma piada”.
 

Então vem o humorista Alyson Vilela e fala que não são as palavras preconceituosas que precisam ser extintas, mas sim o preconceito. O que tem que acabar é o preconceito, fato. Acontece que não se pode separar o preconceito das palavras pelas quais ele se expressa. E se o preconceito se materializa através de palavras, o que faz uma pessoa pensar que ela, só porque está contando uma piada, consegue usar essas palavras sem ser preconceituosa? Ao contrário, a piada tem efeito justamente porque aciona os preconceitos que as pessoas carregam e acionar tais preconceitos é reproduzi-los.
Dizer que se sente suficientemente à vontade pra contar uma piada racista ou machista, porque na realidade você não é racista nem machista (um dos argumentos mais comuns de quem conta esse tipo de piada) é como dizer que você se sente suficientemente à vontade pra aceitar um suborno, já que você não é corrupto, ou que você se sente suficientemente à vontade pra fumar um cigarro, já que você é antitabagista. Ou seja, não tem lógica. Se você não é corrupto, você não aceita suborno, se você é antitabagista, você não fuma e se você não é racista nem machista, você não conta piada racista nem machista, simples assim. E se você quer contar sua piada preconceituosa, vá em frente, mas não se exima da sua responsabilidade, não venha com o papo de que “é só uma piada”, e se prepare para lidar com as reações às suas palavras. Porque perpetuar um preconceito é uma escolha, uma escolha muito da consciente. 

Eu escolho a outra forma de fazer humor, que é inverter a lógica, que é mostrar quão risíveis e ridículos são esses preconceitos, é fazer não só as pessoas rirem, mas fazê-las rirem das pessoas certas e principalmente fazê-las refletirem, porque é assim que a gente muda as coisas. E é por isso que dentre as inúmeras versões da piada machista de péssimo gosto que começa com a pergunta “quantas feministas são necessárias pra mudar uma lâmpada?”, eu escolho a seguinte resposta: Nenhuma. Afinal de contas, não é a lâmpada que precisa ser mudada.

*Veja aqui, aqui ou aqui exemplos de humor com o alvo certo

Comentários

  1. arripiei Nat. Você é sensacional e demonstra isso da maneira mais eloquente que eu já vi. Favor não parar de escrever/contestar nunca,
    Grata.

    ResponderExcluir
  2. Vc é de Ciências Sociais na UFMG, né? Cara, assim, como iniciante no feminismo, te digo que eu tô com um sorrisão por saber que vou encontrar pessoas como vc e semelhantes (daquelas que prevêem que vão entrar). Sério, o texto do Alex é bem semelhante ao seu, mas a partir do terceiro parágrafo você foi totalmente original. Um muito obrigada por acrescentar pontos importantíssimos à minha argumentação. Com certeza vou utilizar alguns dos seus pontos quando alguém me perguntar o porquê de eu ser apática à certas "piadinhas".

    ResponderExcluir
  3. Minha garota! Quanto orgulho do seu pai pela clarividência de suas suas ideias e pela propriedade com que você as expressa!

    ResponderExcluir
  4. Duas coisas tem que acabar no mundo: machistas e mulheres no volante

    ResponderExcluir
  5. Feminista fazendo o que faz de melhor, chorar.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A feminização do desequilíbrio - ou por que homens não fazem terapia?

Começo dizendo que sei que, apesar de não ser um número expressivo, há homens que fazem alguma espécie de terapia, mas meu ponto com esse texto é que a proporção de mulheres que buscam essa ajuda para lidar com suas questões psicológicas e emocionais é absurdamente maior. Vejo com frequência homens em sofrimento muito resistentes a entrar em algum tipo de tratamento terapêutico, como se eles fossem bons demais pra isso, como se não precisassem de ajuda em nada, como se isso fosse coisa de gente doida, ou pior, como se fosse "coisa de mulher". 
Fico pensando que essa idéia culturalmente enraizada da mulher histérica, emocionalmente desequilibrada, em contraste com a do homem forte e independente contribui muito pra essa resistência masculina, mesmo nos meios mais "descolados" e pretensamente desconstruídos. E aí fico pensando o impacto que essa ausência de investimento em auto-conhecimento e auto-transformação por parte dos homens tem na nossa sociedade: como é que …

Vestir-se de “mulher” no carnaval: transgressão ou agressão?

Carnaval é bom pra pular, mas também é bom pra pensar. E a reflexão que faço esse ano, como feminista que sou, tem a ver com o tradicional costume dos homens de se vestir de “mulher” (como se o conceito pudesse ser tratado no singular) nessa época do ano. O que pensam esses homens? O que os motiva? De que “mulher” eles se vestem?

Alguns argumentarão que vestir-se de mulher no Carnaval tem a ver com a inversão generalizada típica da festa. Homens machistas e homofóbicos que normalmente repudiam o feminino por medo de serem considerado homossexuais, nessa época do ano, têm a permissão de se travestir. Mas o que é que se inverte no fim das contas? Os homens não passam a ser as maiores vítimas de assédios e abusos sexuais, nem de violência doméstica, nem têm suas questões invisibilizadas, como acontece diariamente com as mulheres. As mulheres, por sua vez, não ganham o direito de andar com (ou sem) qualquer roupa sem ser incomodadas, nem de tirar a camisa por causa do calor, nem de circul…

Sheik volta atrás, Nanda continua depilada

Depois da polêmica que Nanda Costa causou por posar nua “sem estar depilada”, estando, no entanto, indubitavelmente depilada, mais um banho de machismo, homofobia e conservadorismo: o jogador Emerson Sheik, após o corajoso (infelizmente esse adjetivo ainda faz sentido nesse contexto) selinho no amigo, se “desculpa” por ter “ofendido os corinthianos” e termina com uma piadinha homofóbica, pra que ninguém duvide de sua macheza.
A declaração foi precisamente esta: "Lamento se ofendi a torcida do Corinthians, não foi a minha intenção. Foi só uma brincadeira com um amigo, até porque eu não sou são-paulino" (leia a notícia aqui).

Esses dois casos me chamaram particularmente a atenção por conseguirem expor o nível completamente absurdo (para não dizer surreal) de machismo, homofobia e intolerância da nossa sociedade. No primeiro, temos uma mulher que, mesmo estando depilada, causa polêmica por não estar. Sintoma de uma sociedade que impõe tantos procedimentos estéticos sobre as mu…