Pular para o conteúdo principal

Sobre Duvivier, feminismo e diálogo



A última polêmica feminista nas redes sociais diz respeito a uma das três capas da TPM de novembro deste ano que traz Gregório Duvivier criticando a proibição do aborto no Brasil. Após ter recebido críticas de algumas feministas, Gregório se defendeu em sua coluna, o que colocou um pouco mais de lenha na fogueira. 


Como feminista e ativista virtual, gostaria de dar minha contribuição para o debate, lembrando sempre que existem vários feminismos, várias posições possíveis (e hoje em dia eu vejo isso como algo bastante positivo) e a minha é só mais uma.

Gregório Duvivier foi criticado por estar tirando o protagonismo das mulheres ao ser capa da revista. Muita gente que não participa dos espaços políticos feministas ou com feministas provavelmente nem entende de onde essa crítica vem. Essa crítica é, no entanto, muitíssimo importante e vou tentar resumir o porquê.

Vivemos em um país dominado por homens (basta dizer que em um país com maioria de mulheres, os homens conquistaram 89% dos cargos disputados na última eleição). Isso acontece tanto na macroescala, quanto na micro. Nos espaços políticos que participamos, a predominância da fala é masculina, as decisões mais importantes são tomadas por homens, a fala das mulheres é constantemente cortada ou simplesmente ignorada, as reivindicações feministas são tidas como menos importantes e nossas tentativas de lutar contra isso são constantemente classificadas como agressivas, violentas, tiranas e até 'nazistas'. Não é uma vida fácil. Além de sofrer assédio de 5 em 5 minutos na rua (não estou exagerando), além de sermos questionadas ou silenciadas quando dizemos que sofremos uma agressão ou estupro, além de termos que lutar por cada centímetro de igualdade em nossos relacionamentos com homens, além de termos que entrar em padrões estéticos absurdos e termos sempre problemas de auto-estima por causa disso, não podemos sequer estabelecer espaços políticos exclusivos pra mulheres (que são importantes inclusive para o compartilhamento de experiências de violência que não temos coragem de dividir com homens desconhecidos) sem ouvir que somos sectárias. É o mínimo do mínimo que, no movimento feminista, possamos ter poder total de voz e decisão, porque afinal de contas somos nós que sofremos isso tudo na pele.

Uma vez compreendida a origem dessa crítica totalmente legítima e pertinente, podemos passar pra análise do caso em questão. Não estamos propriamente falando de espaços políticos exclusivos, mas de uma revista cujo público focal são mulheres. E mais especificamente de uma edição que tem três capas, duas delas com mulheres (Leandra Leal e Alessandra Negrini) e uma com um homem (Gregório Duvivier). A princípio, não vejo como negativa a participação minoritária de um homem na luta por uma causa feminista, é importante ter aliados (imagina se todos os homens forem escrotos e machistas e não tiverem nem aí para nossas causas?). O problema que muitas feministas apontam, e que é sim importante, é que, geralmente, quando um homem fala de qualquer coisa (inclusive feminismo) ele ganha muito, mas muito mais destaque, admiração e holofote do que uma mulher que fala a mesmíssima coisa e isso é frustrante pra caramba. Por outro lado, entendo que, infelizmente, algumas pessoas só pensarão a respeito daquilo quando ouvirem um homem falando, e isso é pragmaticamente importante (eu sei que a gente gosta de pensar o mundo de forma idealista e eu faço isso o tempo todo, mas sem pensamento minimamente pragmático, infelizmente não há avanços). Temos então que desenvolver jogo de cintura pra lidar com isso.

A defesa que Gregório fez de si mesmo já é uma outra discussão. E tenho dois posicionamentos distintos a esse respeito. Se, por um lado, é de fato complicado que ele receba tantas críticas de mulheres que defendem o aborto enquanto ele só quis dar a contribuição dele para esta luta, por outro, ver um homem, por qualquer motivo que seja, falando mal "das feministas" e não levando suas críticas em consideração não deixa de me soar violento. E é preciso que os homens aliados do feminismo entendam isso. Eu me considero uma aliada da luta anti-racista, lutei muito dentro da academia pra convencer as pessoas da importância das cotas raciais e outras ações afirmativas e aprendi muito sobre protagonismo nesse  processo. Eu jamais criticarei uma pessoa negra que não gostar de algo que eu falei ou fiz no que diz respeito a essa luta e pensarei de coração sobre a crítica. Ser aliada em outras lutas implica primeiramente aprender a ter humildade, aprender que se erra, que se deve ouvir, que se deve pedir desculpas, que se deve, em muitos momentos, se desfazer do lugar de fala para que as pessoas atingidas por aquela discriminação falem por elas mesmas. Porque senão a gente reproduz as opressões dentro da própria luta contra a opressão e aí a gente não está caminhando pra lugar nenhum, certo?

Acho muito legal que hoje o feminismo tenha ganhado maior destaque, que homens se interessem pelas pautas feministas e que queiram dar sua contribuição. E acho que nós como feministas temos que aprender sim a lidar com esse movimento que é novo, recente, de homens querendo se engajar no feminismo. Mas não é por isso que devemos aceitar tudo que vem deles e supervalorizar suas contribuições (pois isso seria reproduzir o que queremos combater). Somos sim um tanto quanto desconfiadas, um tanto quanto defensivas, porque não queremos abrir todas as portas para pessoas que podem nos silenciar, nos agredir física ou psicologicamente, nos ridicularizar, nos humilhar. E é isso que os homens fazem quando se dizem feministas mas não ouvem as feministas, desqualificam seus argumentos, as chamam de "feminazis" e querem ensinar "como se deve ser feminista". É justamente dessa dominação, desse julgamento, dessa arrogância masculina que estamos tentando nos livrar. E nesse processo ficamos frustradas sim, ficamos agressivas sim, perdemos a paciência sim, porque ser mulher é matar um leão por dia, e quem mata um leão por dia não consegue ser dócil, paciente e razoável o tempo todo (e muito menos são os homens que não passam por um terço do que a gente passa).

Então homens, nos ajudem nas nossas lutas sim, conversem no seu círculo de amigos sobre práticas machistas e não compactuem com elas, participem das lutas feministas no momento que houver espaços mistos e principalmente repensem suas atitudes cotidianas, mas não queiram achar que sabem mais de feminismo do que a gente, não queiram dizer como devemos fazer a nossa luta, parem pra ouvir, pra refletir, pra repensar e não saiam por aí fazendo forgueira de feministas, porque isso não é ser aliado.

Pra terminar, acho sim que o Gregório é um aliado, que é bem intencionado e que está aprendendo, como todas as pessoas que se aventuram a lutar contra injustiças, e que temos que ter paciência com esse processo. Mas faço votos de que ele tenha também paciência com as críticas, de que ele tenha humildade de ouvir, de repensar e de entender que não podemos confundir a reação dxs oprimidxs com a violência dxs opressorxs. E faço votos de que cada vez tenhamos mais homens querendo ser aliados, mas também que todos os homens que querem ser aliados aprendam a ouvir, assim como que mulheres feministas estejam dispostas a dialogar. Quando houver possibilidade de diálogo, claro, porque afinal de contas a gente não é obrigada.

No mais, seguimos nessa luta cheia de contradições e controvérsias, tentando ao mesmo tempo ter firmeza e flexibilidade, ser idealistas e pragmáticas, sabendo que equívocos vão sempre ocorrer, mas que desistir não é uma opção.

Comentários

  1. Li a coluna do Gregório e não creio que ele tenha refutado a crítica. Muito pelo contrário. Ele não rebateu com ataques às feministas que o criticaram. Somente explicou que não, não era a intenção dele ser protagonista de nada, mas sim engrossar o coro em prol do feminismo. Não vi agressividade, desqualificação de opinião nem nada do gênero.

    Estou também aprendendo o feminismo a cada dia. Pra mim, feminismo significa liberdade, para os dois lados! Portanto, na minha humilde opinião, ele tem todo o direito como homem de opinar e defender questões feministas. Assim como eu, como hétero, tenho de defender e debater questões de gays, lésbicas, trans. E ninguém me chama de hipócrita e de querer roubar o protagonismo da "Causa Gay" por isso. Curioso, né? Não dá pra refletir sobre isso?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Falou e disse tudo o que penso. Mais unidade em torno das lutas concretas e menos picuinhas em torno de quem (por sua natureza e não por sua ideologia) tem legitimidade para defender determinada bandeira, seja ela qual for. Por exemplo, há mulheres mais machistas que muitos homens, gays mais homofóbicos que muitos héteros, operários mais anti-operários que muitos burgueses e até negros mais anti-negros que muitos brancos. Portanto, o mais importante é o que a pessoa pensa e sente. Isso importa muito mais do que a condição de natureza e até mesmo a experiência vivida. Tem gente que viveu a ditadura e fala bem dela, por exemplo.


      Excluir
  2. Esse texto é uma grande bobagem. Acredita-se que para conquistar a igualdade num ambiente desigual, é necessário desigualdade para compensar (dar mais importância para argumentos de mulheres, apenas por serem mulheres, por exemplo). Essa crença estúpida tem ocorrido com mais frequência em certos movimentos (pseudo)feministas.

    É claro, não há de se esperar que as mulheres sejam melhores que homens nesse ou em qualquer sentido. O grupo Coletivo Chute do Facebook, por exemplo, deixa muito claro que se certos grupos femininos tivessem a oportunidade, viveríamos numa sociedade onde os homens são oprimidos e subjulgados. Compreendam que vocês mulheres, embora sejam de fato as grandes vítimas do machismo, não são as únicas. Ainda que fossem, a discussão sobre a vítima de uma desigualdade é um assunto de menor relevância que o combate contra a própria desigualdade. Ou será que alguém discorda?

    O texto supõe também que seria justo homens se absterem das discussões feministas para garantir que elas enfim tenham seu próprio espaço e sua própria voz. Mas isso não é pedir uma posição ainda mais paternal e patriarcal da sociedadade? Se querem ser ouvidas tanto quanto os homens são, que seja por próprio mérito, não esperem 'colher de chá', se não, não vale. Se alguém precisa se calar para que o outro tenha voz, então isso não é democracia.
    É muito coitadismo/ingenuidade/burrice achar que o Gregório ganhou mais destaque por ser homem. Não vivemos mais nesse tipo de sociedade. Ele ganhou mais destaque porque ele tá fazendo sucesso pra caralho. Em contrapartida, não conhecia Leandra Leal nem Alessandra Negrini pelo nome. Se quiser falar de mérito, o trabalho dele como fundador e roteirista do Porta é mais importante para a sociedade que o trabalho dessas atrizes globais (o trabalho dele com vídeos de puta qualidade com baixo orçamento ajuda a diminuir o poder da tv oligopolizada, voltando cada vez mais investimentos para internet - uma plataforma evidentemente muito mais livre e democrática). Algumas dessas atrizes é articuladora na sociedade, tem se posicionado politicamente? Não, e não é porque os jornais são machistas - a Folha tem muitas colunistas mulheres. É simplesmente porque elas são meras atrizes que quando estão fora da tv, ocupam na mídia apenas machetes em revistas de fofoca e paparazzi.

    Talvez algum dia a autora entenda que desigualdade só gera mais desigualdade, e que o que ela defende não é "feminismo". Palavra chata essa né? Induz ao erro, eu sei. Mas não implica qualquer vantagem a mais para 'fêmeas'.
    E olha, nem precisa recorrer a grandes filósofas feministas como Beauvoir pra perceber que o texto publicado é uma bobagem. É uma bobagem porque tem como fundamento principal a falácia argumentativa mais conhecida da internet, ad hominem.

    ResponderExcluir
  3. pode até estar correto não querer homens como protagonistas do feminismo, mas se for dispensar a contribuição dos homens às causas feministas apenas pq são homens e apenas pq não querer dar visibilidade a eles nos movimentos feministas teríamos q descartar, por exemplo, toda a contribuição q chico buarque deu à causa, num tempo muito mais complicado; e aí cabe refletir o tamanho da contribuição dele em relação a algumas feministas q tentam brigar por protagonismos como se isso fosse o mais importante no movimento

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A feminização do desequilíbrio - ou por que homens não fazem terapia?

Começo dizendo que sei que, apesar de não ser um número expressivo, há homens que fazem alguma espécie de terapia, mas meu ponto com esse texto é que a proporção de mulheres que buscam essa ajuda para lidar com suas questões psicológicas e emocionais é absurdamente maior. Vejo com frequência homens em sofrimento muito resistentes a entrar em algum tipo de tratamento terapêutico, como se eles fossem bons demais pra isso, como se não precisassem de ajuda em nada, como se isso fosse coisa de gente doida, ou pior, como se fosse "coisa de mulher". 
Fico pensando que essa idéia culturalmente enraizada da mulher histérica, emocionalmente desequilibrada, em contraste com a do homem forte e independente contribui muito pra essa resistência masculina, mesmo nos meios mais "descolados" e pretensamente desconstruídos. E aí fico pensando o impacto que essa ausência de investimento em auto-conhecimento e auto-transformação por parte dos homens tem na nossa sociedade: como é que …

Vestir-se de “mulher” no carnaval: transgressão ou agressão?

Carnaval é bom pra pular, mas também é bom pra pensar. E a reflexão que faço esse ano, como feminista que sou, tem a ver com o tradicional costume dos homens de se vestir de “mulher” (como se o conceito pudesse ser tratado no singular) nessa época do ano. O que pensam esses homens? O que os motiva? De que “mulher” eles se vestem?

Alguns argumentarão que vestir-se de mulher no Carnaval tem a ver com a inversão generalizada típica da festa. Homens machistas e homofóbicos que normalmente repudiam o feminino por medo de serem considerado homossexuais, nessa época do ano, têm a permissão de se travestir. Mas o que é que se inverte no fim das contas? Os homens não passam a ser as maiores vítimas de assédios e abusos sexuais, nem de violência doméstica, nem têm suas questões invisibilizadas, como acontece diariamente com as mulheres. As mulheres, por sua vez, não ganham o direito de andar com (ou sem) qualquer roupa sem ser incomodadas, nem de tirar a camisa por causa do calor, nem de circul…

Sheik volta atrás, Nanda continua depilada

Depois da polêmica que Nanda Costa causou por posar nua “sem estar depilada”, estando, no entanto, indubitavelmente depilada, mais um banho de machismo, homofobia e conservadorismo: o jogador Emerson Sheik, após o corajoso (infelizmente esse adjetivo ainda faz sentido nesse contexto) selinho no amigo, se “desculpa” por ter “ofendido os corinthianos” e termina com uma piadinha homofóbica, pra que ninguém duvide de sua macheza.
A declaração foi precisamente esta: "Lamento se ofendi a torcida do Corinthians, não foi a minha intenção. Foi só uma brincadeira com um amigo, até porque eu não sou são-paulino" (leia a notícia aqui).

Esses dois casos me chamaram particularmente a atenção por conseguirem expor o nível completamente absurdo (para não dizer surreal) de machismo, homofobia e intolerância da nossa sociedade. No primeiro, temos uma mulher que, mesmo estando depilada, causa polêmica por não estar. Sintoma de uma sociedade que impõe tantos procedimentos estéticos sobre as mu…