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A feminização do desequilíbrio - ou por que homens não fazem terapia?


Começo dizendo que sei que, apesar de não ser um número expressivo, há homens que fazem alguma espécie de terapia, mas meu ponto com esse texto é que a proporção de mulheres que buscam essa ajuda para lidar com suas questões psicológicas e emocionais é absurdamente maior. Vejo com frequência homens em sofrimento muito resistentes a entrar em algum tipo de tratamento terapêutico, como se eles fossem bons demais pra isso, como se não precisassem de ajuda em nada, como se isso fosse coisa de gente doida, ou pior, como se fosse "coisa de mulher". 

Fico pensando que essa idéia culturalmente enraizada da mulher histérica, emocionalmente desequilibrada, em contraste com a do homem forte e independente contribui muito pra essa resistência masculina, mesmo nos meios mais "descolados" e pretensamente desconstruídos. E aí fico pensando o impacto que essa ausência de investimento em auto-conhecimento e auto-transformação por parte dos homens tem na nossa sociedade: como é que vamos reconstruir maneiras de nos relacionar, como é que vamos reconstruir modelos políticos e sociais, como vamos desconstruir os machismos nossos de cada dia com homens que não param pra olhar pra dentro, pra encarar seus monstros e transformá-los? Como avançar como sociedade se o ego e a vontade de poder (que esconde um enorme complexo de inferioridade) continuam intactos dentro de cada um? Como efetuar mudanças no micro e no macro se sentimentos e diálogo continuam sendo vistos como "coisas de mulher" e racionalidade e ação como "coisa de homem"?

Observo como a grande disseminação do feminismo nos últimos anos impulsionou muitas mulheres a buscar várias formas de terapia (formais ou não) para fortalecer suas auto-estimas estraçalhadas pela sociedade, mas como o mesmo não aconteceu com a maioria das homens. Será que somos só nós as desequilibradas? 

Acho que a resposta para essa pergunta é óbvia: não. A dor e os conflitos internos fazem parte da condição humana. Acontece que quase um gênero inteiro prefere não lidar com isso, não investigar o que está por trás da vontade de ferir alguém ou do impulso de objetificar, dominar e desprezar mulheres, ou ainda das versões mais cotidianas dessas mesmas coisas, como a falta de respeito à diversidade de opiniões ou a falta de empatia nas relações. E me parece que as pessoas comprometidas com as transformações da sociedade deveriam ser as primeiras a se preocupar com a transformação de si mesmas e de suas relações. Ou alguém acha que um conjunto de pessoas completamente desequilibradas e sem capacidade de diálogo vão conseguir criar uma sociedade respeitosa e igualitária? A história já mostrou como o impulso ditatorial não está só na ideologia política, mas dentro das pessoas de carne e osso que a colocam em prática. O deslumbre com o poder e a falta de empatia podem se manifestar em pessoas de todas as vertentes políticas e historicamente foram os homens - por ocuparem as posições de poder - que mais caíram nessas armadilhas internas gerando consequências catastróficas para a humanidade. 

Outro fato muito interessante - e igualmente alarmante - é a distribuição de gênero entre profissionais de psicologia: menos de 10% da categoria é composta por homens e, em termos de cuidados psicológicos, a área mais masculina de todas é a da psiquiatria (informações retiradas deste site). Caímos de novo no clichê das mulheres que cuidam das emoções enquanto homens encontram uma solução rápida e prática para pessoas "disfuncionais": os remédios tarja preta, que a despeito de serem importantes em algumas circunstâncias, tem sido prescritos feito aspirina, mascarando as origens emocionais geradoras dos sintomas psíquicos. Em uma sociedade masculina, produtivista e voltada para o externo não há tempo de olhar pra dentro, de sentir, de investigar suas dores, é preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar como um zumbi até adquirir algum câncer qualquer que irá consumir todo o dinheiro ganho em gastos médicos.  A sociedade inteira precisa de terapia.

É importante dizer que não é preciso necessariamente ir a um/a terapeuta para se trabalhar, mas é no mínimo necessário muito auto-conhecimento, muita meditação e muita conversa sobre sentimentos com as pessoas próximas (outra coisa que quase não acontece em círculos masculinos). Cada um se conhece e se cura da forma que melhor lhe convém, só não dá mais pra ignorar que todo mundo precisa fazer algo a esse respeito, ou então não avançaremos enquanto seres humanos e enquanto sociedade. E as mulheres já estão fazendo isso.

Fica a questão: quando será que os homens reconhecerão sua condição humana e terão a coragem - esta sim - de enfrentar seus monstros internos com a mesma bravura que exibem para enfrentar os externos? 

Comentários

  1. Infelizmente, a consequência é essa: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140318_suicidio_masculino_mv

    Apesar de o número de suicídios entre mulheres ter aumentado no Brasil, também já topei com o dado de que é maior entre os homens.

    No mais, gostei bastante do texto. Realmente precisamos discutir mais a saúde masculina, não só a mental, mas como um todo.

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