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Um voto altruísta e incoerente

 
Peço desculpas aos povos indígenas, às pessoas que moram na favela da Maré, às pessoas da oposição de esquerda que foram vigiadas, ameaçadas, reprimidas e presas por se manifestar contra a  Copa (incluindo eu mesma), à população negra exterminada, à população LGBT que quase não foi enxergada e às mulheres que morreram fazendo abortos, mas, depois de muito refletir, decidi votar na Dilma.

Decidi votar na Dilma, não por medo (acho que esse sentimento, tantas vezes mobilizado por forças conservadoras, não é um bom motivo para fazer escolhas políticas), mas pelas mulheres que conheci no Vale do Jequitinhonha, que antes do governo do PT não tinham renda, atendimento médico, nem comida. Decidi votar na Dilma pelas comunidades quilombolas e tradicionais, que apesar das violências que ainda sofrem, só começaram a ser reconhecidas e minimamente amparadas pelo Estado no governo do PT. Pelas negras e negros que hoje podem estudar nas universidades públicas e por todas as pessoas que trabalham e estudam nessas universidades (que no governo do PSDB não tinha dinheiro nem pra pagar a conta de luz). Pelas mulheres que sofrem violência doméstica, que apesar da enorme falta de estrutura, hoje têm mais instrumentos para denunciar a violência. Pelos menores de 18 anos que podem vir a ser encarcerados como maiores em um eventual governo do Aécio. Pelos professores da rede estadual de MG que foram extremamente desrespeitados e mal pagos no governo do PSDB. E também por todas as pessoas às quais pedi desculpas logo acima, por saber que a situação delas provavelmente piorará em um eventual governo do Aécio.

Este é um voto que me causa muito desconforto, mas um voto nulo neste momento me traria ainda mais. Ressalto que admiro e respeito muito os votos nulos convictos da oposição da esquerda (que ao invés de ser demonizada, deveria ser ouvida pelo PT e sua militância), mas o meu voto nulo não seria convicto e não posso enganar a mim mesma. Corro o risco, com essa declaração, de perder minha coerência, mas prefiro nesse momento dar um voto altruísta. Não consigo desejar que o PT perca para que possa voltar a ser oposição de esquerda às custas de milhões de pessoas cuja comida no prato e direitos mais do que básicos dependem da continuidade desse governo. Abandono aqui minha coerência política por essas pessoas.

A sociedade que eu quero não se realizará nem via PT, nem via PSDB, mas quem acha que PT e PSDB são a mesma coisa, vive provavelmente numa bolha da esquerda. A Dilma não me representa, mas ao ver o tamanho do elitismo, do racismo, da homofobia, da xenofobia e do ódio que aecistas têm das melhorias que o PT trouxe pras pessoas pobres, periféricas, negras e nordestinas, sei de que lado estou nessa eleição. E se a Dilma ganhar, continuarei na oposição ferrenha de esquerda a um partido que, pra mim, é de centro. E estarei bem representada no congresso pelos parlamentares do PSOL.

Faço parte de uma juventude de esquerda que foi profundamente ignorada e ofendida pela militância do PT, fui chamada de coxinha por me manifestar contra a Copa, fui tida como irresponsável a serviço da direita por declarar um possível voto nulo, ao invés de ter minha crítica ouvida e levada em consideração. Por mim, eu não deveria jamais dar meu voto à Dilma. Mas apesar de ter sofrido esses ataques, vou passar por cima do meu orgulho e da minha coerência para dar esse voto altruísta em Dilma, não por essa militância surda, mas
por todas as pessoas que não têm, como eu, a segurança material necessária para manter-se ilesas independente de qual partido ganhar. Não virei pró-Dilma, mas sou anti-Aécio e não lavarei minhas mãos.

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